
SOBRE AS ASSEMBLEIAS
Como transformar parte da riqueza gerada pelos recursos naturais de Moçambique em melhores condições de vida para as comunidades — e, ao mesmo tempo, prepará-las para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas?
Essa foi a questão que esteve no centro das Assembleias Cidadãs sobre Mudanças Climáticas em Moçambique, realizadas nas províncias de Cabo Delgado, Tete e Gaza.
Entre novembro de 2025 e junho de 2026, o projeto criou espaços de deliberação para que cidadãs e cidadãos comuns pudessem conhecer melhor o tema, compartilhar as experiências de seus territórios e construir recomendações sobre a aplicação de receitas provenientes da exploração de recursos naturais em ações voltadas à resiliência climática.
A iniciativa foi realizada pelo Governo de Moçambique, por meio do Ministério das Finanças, no âmbito do Projeto de Gestão de Recursos Públicos para Prestação de Serviços (GEPRES), com apoio do Banco Mundial. O Delibera Brasil foi responsável pela consultoria técnica e metodológica, em parceria com a Fundação MASC.
CONTEXTO: QUAL O DESAFIO?
Cabo Delgado, Tete e Gaza vivem realidades diferentes, mas compartilham uma questão importante: são territórios onde os efeitos das mudanças climáticas já fazem parte da vida das comunidades e onde a exploração de recursos naturais também ocupa um lugar relevante na economia e no desenvolvimento local.
Secas, cheias, ciclones e outros eventos extremos afetam a produção agrícola, o acesso à água, a segurança alimentar, a infraestrutura e os serviços básicos. Ao mesmo tempo, as receitas geradas pela exploração dos recursos naturais abrem uma discussão fundamental sobre como esses recursos públicos podem retornar à população e contribuir para territórios mais preparados para lidar com essas transformações.
Foi nesse encontro entre recursos naturais, orçamento público e adaptação climática que se estruturou a missão das Assembleias.
A pergunta colocada diante dos cidadãos era concreta: quais investimentos devem ser priorizados para que essas receitas contribuam para fortalecer a resiliência climática e melhorar as condições de vida das comunidades?
Para respondê-la, era preciso primeiro garantir que diferentes experiências existentes em cada província pudessem chegar à mesma mesa.
MOBILIZAÇÃO, RECRUTAMENTO E SORTEIO CIDADÃO
Para formar grupos diversos e representativos da população de Cabo Delgado, Tete e Gaza, foi realizado um amplo processo de mobilização nos territórios. Equipes foram a diferentes distritos, conversaram com moradores, realizaram encontros comunitários e articularam a divulgação com lideranças, autoridades locais e rádios comunitárias.
Ao todo, 1.698 pessoas foram registradas para participar do processo de seleção: 627 em Cabo Delgado, 449 em Tete e 622 em Gaza.
A partir desse universo, foram realizados sorteios públicos, considerando critérios de representatividade. Em cada província foram selecionados 60 titulares e 60 suplentes, buscando compor grupos que refletissem diferentes características da população.
Mulheres e homens, jovens e pessoas mais velhas, moradores de diferentes territórios, níveis de escolaridade e ocupações passaram, assim, a compartilhar o mesmo espaço deliberativo. Entre os participantes estavam camponeses e agricultores, trabalhadores informais, funcionários públicos, estudantes e pessoas sem ocupação formal.
Essa diversidade não é apenas uma característica das Assembleias Cidadãs: é parte da metodologia. O sorteio cidadão busca fazer com que pessoas que nem sempre estão nos espaços tradicionais de participação também tenham a possibilidade de discutir decisões públicas que afetam suas vidas.
GRUPO E CADERNO DE CONTEÚDO
Nas três províncias, os primeiros momentos das Assembleias foram dedicados a compreender temas como mudanças climáticas e resiliência, exploração de recursos naturais, legislação, receitas públicas e mecanismos de compensação e responsabilidade socioambiental.
Essas informações dialogaram com outro conhecimento indispensável: a experiência de quem vive no território.
Ao falar sobre mudanças climáticas, os participantes também falavam sobre aquilo que já percebiam no cotidiano: períodos de seca, cheias e ciclones; perdas na produção agrícola; dificuldades de acesso à água; insegurança alimentar; problemas de saúde e transporte; destruição de infraestruturas e desafios enfrentados pelas populações mais vulneráveis.
Informação técnica e conhecimento vivido passaram, assim, a ocupar a mesma conversa.
A perspectiva de gênero também esteve presente na metodologia. Em diferentes momentos, mulheres e homens participaram de grupos separados, abrindo espaço para identificar como os impactos climáticos e as condições sociais atingem cada grupo de maneiras distintas — especialmente em questões como acesso à água, agricultura familiar, segurança alimentar e responsabilidades de cuidado.
TRÊS ASSEMBLEIAS, TRÊS TERRITÓRIOS
A primeira Assembleia aconteceu em Cabo Delgado, entre 17 e 19 de março de 2026, na cidade de Pemba. Foram 60 cidadãs e cidadãos, selecionados por sorteio público entre as 627 pessoas mobilizadas na província.
Em Tete, 57 participantes se reuniram entre 8 e 10 de abril. Além de conhecerem os mecanismos de arrecadação e distribuição das receitas dos recursos naturais, os cidadãos analisaram instrumentos como os Planos Locais de Adaptação às Mudanças Climáticas e discutiram como os investimentos poderiam responder às necessidades concretas das comunidades.
A terceira Assembleia foi realizada em Gaza, entre 26 e 28 de maio, com 55 participantes. Ali, as discussões também trouxeram questões como degradação ambiental, acesso a serviços básicos, transparência na aplicação dos recursos e os benefícios que chegam — ou ainda não chegam — às comunidades locais.
Havia ainda um elemento essencial para que todas essas vozes pudessem participar: a língua.
Moçambique é um país multilíngue. Além do português, idiomas como sena, nhungue, changana e macua fazem parte do cotidiano das comunidades. Por isso, tradutores locais acompanharam as Assembleias e os grupos de trabalho foram organizados, quando necessário, por afinidade linguística.
Mais do que traduzir palavras, esse cuidado buscou garantir uma premissa básica da deliberação: para participar de uma decisão, é preciso ter condições de compreender e ser compreendido.
DA CONVERSA À DELIBERAÇÃO
Com uma base comum de informações construída, as Assembleias avançaram para a etapa deliberativa.
Os participantes trabalharam em pequenos grupos e plenárias, acompanhados por facilitadores do Delibera Brasil e da Fundação MASC. O papel da facilitação foi garantir espaço equilibrado de fala, estimular a escuta e a troca de argumentos e ajudar o grupo a identificar convergências.
Antes de definir ações concretas, os cidadãos analisaram 18 áreas relacionadas ao desenvolvimento local e à adaptação climática, baseadas nos Planos Locais de Adaptação distritais.
Mesmo partindo de contextos diferentes, as três Assembleias encontraram pontos em comum.
Saúde e agricultura foram as áreas que reuniram maior consenso nas três províncias. Transporte, abastecimento de água e irrigação, sistemas de aviso prévio e resposta a desastres, proteção social, segurança alimentar e energia também apareceram entre as prioridades.
Mas cada território também trouxe suas próprias urgências. Gaza deu maior destaque à proteção social e à infraestrutura resiliente; Tete chamou atenção para a pecuária e a saúde animal; e Cabo Delgado colocou entre suas prioridades a proteção social e o acolhimento de pessoas deslocadas.
É justamente aí que a deliberação ganha sentido: não buscar uma resposta pronta para territórios diferentes, mas criar condições para que as próprias pessoas possam definir o que é prioritário a partir de suas realidades.
RECOMENDAÇÕES CONSTRUÍDAS PELOS CIDADÃOS
No terceiro dia de cada Assembleia, as prioridades se transformaram em propostas.
Em Cabo Delgado, os cidadãos chegaram, por consenso, a 13 recomendações. Entre elas estão apoio à agricultura com sementes resistentes à seca, ampliação de unidades de saúde e ambulâncias, melhoria de estradas e pontes, sistemas de abastecimento de água e irrigação, energia solar, educação ambiental e fortalecimento dos sistemas comunitários de aviso e resposta a desastres.
Em Tete, foram construídas 11 recomendações, envolvendo agricultura de conservação, atendimento de saúde, abastecimento e armazenamento de água, irrigação, estradas e pontes, mercados comunitários, energia solar, proteção social, escolas resilientes e habitações seguras para pessoas afetadas por desastres naturais.
Já em Gaza, a Assembleia formulou 12 recomendações, que incluem investimentos em saúde e agricultura resiliente, sistemas de irrigação, barragens e drenagem, estradas resilientes, proteção social, conservação dos recursos naturais, resposta a desastres e transporte público.
Ao final, 172 cidadãos e cidadãs haviam produzido 36 recomendações para três territórios distintos.
Não se tratava apenas de responder “onde investir”. Cada recomendação carregava consigo argumentos, experiências e prioridades construídas ao longo do processo deliberativo.
DEVOLUTIVA: QUANDO AS RECOMENDAÇÕES VOLTAM AO PODER PÚBLICO
Uma Assembleia Cidadã não termina com a escrita das recomendações.
A devolutiva é uma etapa fundamental do processo: é quando aquilo que os cidadãos construíram retorna aos espaços institucionais responsáveis pelas decisões e começa a percorrer os caminhos necessários para sua possível incorporação às políticas públicas.
Após as sessões, foram elaborados os Relatórios de Recomendações de Cabo Delgado, Tete e Gaza, encaminhados oficialmente pelo GEPRES/Ministério das Finanças ao Grupo de Direção e aos governos provinciais.
Também foram realizados encontros presenciais de devolutiva nas três províncias: 20 de maio, em Pemba; 3 de junho, em Tete; e 19 de junho, em Xai-Xai. Os eventos reuniram representantes das Assembleias Cidadãs, governos provincial e central, sociedade civil, especialistas e parceiros para apresentar as Cartas de Recomendações e discutir responsabilidades e mecanismos de encaminhamento.
A partir daí começa talvez a etapa mais desafiadora: aproximar a voz organizada pelos cidadãos dos instrumentos de planejamento, orçamento e implementação das políticas públicas.
O QUE FICA DESSA EXPERIÊNCIA?
Durante três dias, em cada província, pessoas que provavelmente não se encontrariam em um mesmo espaço foram convidadas a fazer algo que está no centro de uma Assembleia Cidadã: sair apenas da perspectiva individual para pensar também no que pode ser melhor para o conjunto da comunidade.
Para isso, não precisaram deixar suas experiências de lado. Pelo contrário. Foi justamente o encontro entre essas experiências, a informação qualificada e a escuta de perspectivas diferentes que tornou possível a deliberação.
A realização das Assembleias Cidadãs sobre Mudanças Climáticas em Moçambique mostra como processos deliberativos podem aproximar decisões públicas de quem sente seus efeitos no cotidiano.
E deixa uma questão que continua depois do encerramento das sessões: o que muda quando cidadãos comuns passam a ocupar, de maneira informada e representativa, um lugar na construção das decisões públicas?
A resposta começa nas 36 recomendações construídas em Cabo Delgado, Tete e Gaza — e segue agora nos caminhos que elas poderão percorrer dentro das políticas públicas de Moçambique.
Realização: Governo de Moçambique, por meio do Ministério das Finanças / GEPRES
Apoio: Banco Mundial
Consultoria técnica e metodológica: Delibera Brasil
Coexecução: Fundação MASC